









Beto brincava com seus bloquinhos no chão da sala, quando viu a garrafa. Da embalagem de vidro verde aparentemente comum, emanava um cheiro azedo e desagradável que imediatamente incomodou e provocou medo. Mesmo intimidado, ele tentou movê-la, mas não conseguiu.
Sua mãe orientou Beto a ignorar a presença da garrafa. Parecia que ela também tentava fazer isso, ainda que tropeçasse no objeto, saindo apressada para o trabalho e outros momentos do dia. No entanto, essa estratégia não funcionou por muito tempo: o pai foi ficando cada vez mais distante da esposa e do filho, fissurado pela garrafa, até cair preso dentro dela.
A obra de Artur Gębka, com as expressivas ilustrações de Agata Dudek, provoca sentimentos de incômodo e angústia que não podemos ignorar. Para as famílias que, em maior ou menor grau, se reconhecem nas narrativas sobre alcoolismo, este livro abre janelas de cura, tanto para as crianças como para os adultos.
A literatura não se destina a famílias específicas. Mesmo para quem nunca conviveu com esse cenário, são inúmeras as reflexões, especialmente sobre os instrumentos e os recursos que usamos para lidar com sentimentos de frustração e perda, a necessidade de diálogo para trazer um alívio momentâneo até uma compreensão mais profunda. Sim, este é um livro sobre empatia, esperança, acolhimento e apoio, verdadeiramente capazes de recuperar vidas.