









O triste período da história brasileira em que homens e mulheres foram sequestrados de seus lares na África para serem escravizadas em nosso país, irrefutavelmente, deixou cicatrizes abertas até hoje. Existem muitos relatos particulares de pessoas separadas de suas famílias que enfrentaram todo tipo de horror e sofrimento na luta para reencontrarem-se.
Uma dessas pessoas foi Teodora Dias da Cunha, a Tiô, retratada na impressionante obra de Marcelo D’Salete, vencedor dos Prêmio Jabuti e do Troféu HQ Mix. Em seus desenhos fortes e expressivos, as emoções e muitas vezes o mudo diálogo entre as personagens são retratadas com realismo, enquanto a cidade de São Paulo é fielmente pontuada em seus principais marcos como os casarios, a Ladeira do Piques, a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, a Catedral da Sé, oferecendo uma viagem aos meados XIX.
Vinda do Congo para o trabalho escravo em São Paulo, ela foi separada do marido e do filho, conduzidos às terras do interior da província. Para conquistar sua alforria, Tiodora precisa da ajuda dos parentes e a jornada de sua carta é a jornada do livro: as palavras ditadas encontram as mãos capazes de Claro Antônio da Silva, um homem negro também escravizado, que escreve para ela a ‘mukanda’ ou carta, no idioma quimbundo. A carta passa para as mãos da menina Joana e depois ao cuidados do menino Benedito, que fará de tudo para que chegue a seus destinatários.
O garoto encontra quem deseje lhe ajudar e quem quer lhe fazer mal, numa época em que apenas por existir enquanto negro já era considerado uma afronta. Hoje, passados quase 200 anos, as coisas não mudaram tanto assim — e é justamente essa uma das reflexões mais importantes que podemos tirar dessa narrativa histórica. Deste modo, não deixe de ler o posfácio “Cartas, becos e vielas” e prepare-se para se emocionar com a própria pesquisa que nos dão notícias das cartas de Tiodora: um verdadeiro tesouro, que jamais pode ser esquecido.
