








Num jogo de luz e sombra, Caio Zero faz uma combinação inesperada entre quadrinhos e um tema que ainda não estamos acostumados a ver em livros infantojuvenis e que, por esse motivo, torna-se uma abordagem tão necessária aos leitores na contemporaneidade: as crianças em situação de rua.
Rumi é um garoto que mora em um prédio abandonado, ao lado de seu gato Nico que encontrou no terreno de um lixão, vivendo entre pessoas hostis, donos de estabelecimentos comerciais e motoristas, mas também pessoas generosas que lhe fazem o almoço e até mesmo cuidam de suas roupas. De um lado para outro, Rumi também parece hostil à aproximação de um ou outro rosto. É o caso do encontro com a menina Malu que ele sente como invasiva, no primeiro momento, mas depois vai relaxando a vigilância e estreitando um laço de amizade.
É assim que, ao fundo das cenas, registramos a situação ambígua da vulnerabilidade social, a brutalidade do cotidiano e a complexidade da vida nas ruas. Esta matéria pode gerar conversas importantes sobre as relações de pertencimento, estar em família, numa narrativa francamente tecida com afeto e companheirismo. O olhar sensível do artista, que vivencia o dia a dia escolar e as realidades periféricas, não desumaniza a personagem, nem romantiza a situação de negligência e abandono social. Rumi também nos permite uma compreensão sobre o que pode vir de positivo quando estamos abertos aos encontros da vida.
